8 de nov de 2007

Desabafo

Um dia desses eu estava na porta do supermercado aqui perto de casa. De coração distraído, e acho que por isso fui atingida. Foi uma mulher, sentada ali perto, que me acinzentou o dia. Sem querer e sem saber. É que, olhando pra ela, eu senti que havia algo de estranho. Eu não sabia dizer o que era, mas não estava certo. Alguma coisa fora do lugar, algo pelo avesso. Conversava com outras duas mulheres. E reclamava de tudo. Do marido, que ganhava pouco e devia trabalhar mais. Dos filhos, que não ligavam para ela. Dos netos, que davam muita despesa para os filhos. Do patrão, que não reconhecia seu trabalho. Do governo, que era corrupto. Da comida, que tinha calorias demais. Do tempo, que estava muito quente. Juro. Minha alma passional poderia me fazer exagerar, mas aqui nem seria preciso. Porque em menos de quinze minutos eu a ouvi reclamando de pelo menos umas quinze coisas diferentes. Tudo tinha algum defeito, nada era como ela gostaria, tudo tinha que ser diferente do que era. Aí que eu entendi. E ficou clara a razão da estranheza. O que tinha aquela mulher que havia me incomodado e me ferido tanto desde o momento em que a vi e passou a fazer parte do meu mundo. É que ela era indefinida. Era velha sem ser velha. Uma incompatibilidade, uma incongruência entre a idade do corpo e a idade da alma. Uma coisa tão estranha que fica até difícil definir. Ela não era velha. Cronologicamente, quero dizer. Tinha o que? No máximo, quarenta e cinco. Mas tinha alma centenária. E daquelas que só acumulam cansaço e desilusão. Nunca sabedoria. Porque falava como quem já viveu tudo o que tinha para viver e um pouco mais. Como quem já cansou e desistiu. Ela reclamou, reclamou, reclamou. E se foi. E eu fiquei ali pensando. Meio perdida, entre assustada e entristecida. Porque se tem uma coisa que me apavora e ameaça é essa derrota. Ser derrotada pelo tempo, pela vida, pelas dores. Deixar-me vencer pelo que não foi, pelo que não deu, pelo que não fiz. Isso é tudo o que não quero pra mim, nunca. Posso perder, sim. Posso cair. Mas a derrota, essa nunca. Para essa eu quero sempre fechar a porta. É por isso que rezo todos os dias (para o meu deus, aquele que é só meu, e que só eu conheço e sei o que significa) e peço que nunca deixe de me permitir. Que me conceda, sempre. Que afaste de mim a impossibilidade .O conformismo. Porque sei que nada disso cabe em mim. Não na pessoa que eu quero ser. E que estou aprendendo a construir. Que eu possa lutar. E ter alegria. Amar. E ser amada. E ter alguém pra me segurar a mão. Hoje e sempre. É o que me basta.

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