13 de abr de 2009

Texto ultrapassado

Chegou a conta de celular de fevereiro. Mês de Rolling Stones, Franz Ferdinand, carnaval. Ou seja, mês de pagar o maldito deslocamento. Nem cito valores, para não reviver a tristeza que senti ao ver o quanto tive que desembolsar. Resolvi então ir à loja da minha operadora para trocar o plano com urgência. Sento com uma atendente muito da grossa, com a cara cheia de espinhas e voz de macha. Lembrei do Massaranduba. - Qual é seu plano? - Não sei o nome. Comprei na promoção do Dia dos Pais de 2004. - Ihh, seu plano é bem antigo. Antigo? Mas hein? Quer dizer que agosto de 2004 agora é antigo? A noção de tempo mundial mudou mesmo, isso não é mistério. Mas daí a 2004 ser antigamente é demais. Só faltou ela falar que em algumas cavernas já encontraram até desenhos com seres humanos caçando mamutes e usando um celular igual ao meu. E isso porque o comprei em 2003. Sempre foi perfeito para mim. Nunca senti falta de máquina fotográfica, tela colorida, toques polifônicos, poliglotas, enfim. Máquina fotográfica é igual. Quando surgiu a digital, foi aquele furor anal nos famintos por lançamentos tecnológicos. De repente, ter uma máquina de 2 MP passou a ser credo, ridículo, que vergonha. Comprei a minha com 5 MP, pensando em também usar sua poderosa definição e recursos fantásticos em layouts. Na colação de grau do meu irmão, uma mulher sentada ao meu lado olhou para minha máquina com aquela carinha de inveja e perguntou: - Quantos megapixels a sua tem? Sete? - Não. Tem 5. Pronto. A expressão dela voltou a relaxar e um sorriso de canto de boca aflorou naquela cara cheia de pancake: - A minha tem 7. Mal sabe ela que provavelmente nunca vai desfrutar de seus tão bem-dotados sete megapixels. Que pra uma câmera ser boa, outros fatores também têm que ser considerados. Optei por fazer minha boa ação do dia. Fiquei quieta. E nem foi só a tecnologia que ficou mais perecível. Tudo vai ficando ultrapassado com uma velocidade maior que nossa memória e conta bancária podem suportar. Até as relações pessoais. Acompanha só: Você quer conhecer uma banda nova. Vai e baixa em casa mesmo. Só que não tem tempo pra escutar. Então compra um MP3 player. Mas celular e MP3 player ocupam muito espaço. Compra um celular com MP3 player e máquina fotográfica. A resolução da máquina fotográfica não é tão boa assim. Compra um supermáquina digital. Aí você começa a tirar foto de tudo quanto é coisa: você no espelho, amigo bêbado, fotos poéticas. Pensa então: vou criar um fotolog. Aproveita e entra no Orkut também. Olha!, que jóia, todos seus amigos lá, até aqueles sumidos. Adiciona todos no Messenger. Toda vez que entra na internet, faz malabarismo indo ao Orkut, fotolog, checando seus emails, baixando músicas e ainda falando pelo Messenger. Quando você vê, tudo que foi criado pra “ganhar” tempo, “ganhar” espaço, só fez você passar mais horas num mundo virtual, fazendo a manutenção de tudo que criou. E por mais que as maravilhas da modernidade deixem tudo mais prático, nada se compara a encontros ao vivo, pessoas reais. - Me deu um ninja, hein? - Foi mal, não deu pra ir. Não viu o recado que deixei pra você no orkut? - Não acessei essa semana. - Também mandei email. - Não acessei também. - Te mandei torpedo, cara. - Meu celular quebrou, contei não? - Porra, assim fica difícil te encontrar. Mas bem que tentei avisar. - Mas por que você não foi? - Marquei de encontrar uma amiga que mora na Inglaterra no Skype. - Porra, cara, mas era nosso chope mensal. - Foi mal. Mas é que antigamente eu tinha mais tempo. Entra aí no Messenger que a gente se fala mais.

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